
Desde seu surgimento, em 2000, a Marcha tem se afirmado como um movimento que articula ações locais, nacionais e internacionais. Nestes seis anos, construiu sua força e legitimidade organizando as mulheres em torno a uma agenda radical anti-capitalista e anti-patriarcal. Neste trajeto, utilizou como estratégia fortalecer a auto-organização das mulheres, concomitante com a presença nos movimentos sociais, dentro de uma perspectiva de construção de um projeto que incorpore o feminismo e as mulheres como sujeitos políticos.A marca deste movimento que estamos construindo também a partir do Brasil, são ações políticas em espaço público, em que se criaram formas irreverentes e alegres de crítica à sociedade capitalista, machista e patriarcal.
Nestes últimos anos as ativistas da Marcha estiveram nas ruas, nos debates, nas mobilizações em diversas situações: contra a pobreza e a violência, pela valorização do salário mínimo, pelo direito à terra, legalização do aborto, contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e Organização Mundial do Comércio (OMC), contra o deserto verde e violência sexista, por mudanças na política econômica e reforma urbana.
Ações internacionais da Marcha em 2005
Durante todo o ano de 2005, em muitos estados do Brasil foi possível ver as atividades das feministas da Marcha. A preparação para o lançamento das ações internacionais da Marcha começou em janeiro, durante o Fórum Social Mundial. Debates, divulgação de materiais e assembléias juntaram militantes de todos os Estados e de outros países.
No 8 de março de 2005, sob a responsabilidade da coordenação brasileira da Marcha, foi lançada em São Paulo a Carta das Mulheres para a Humanidade, documento que expressa as posições da Marcha e sua visão do mundo que queremos construir. Mais de 30 mil mulheres vindas de várias localidades foram para as ruas de São Paulo: mulheres dos movimentos feministas, estudantes, sindicalistas, guerreiras da luta anti-racista, dos movimentos de moradia, contra a lesbofobia, trabalhadoras do campo e da cidade, desempregadas.
Para chegar lá foram meses de preparação nas regiões. Discussões em torno da Carta, arrecadação de fundos, festas, debates. As muitas que não puderam estar em São Paulo realizaram atividades locais, anunciando em suas cidades a nossa vitoriosa ação e os temas que levamos para as ruas. Celebraram o feminismo e o mundo que querem as mulheres. Foi a maior manifestação feminista da história do país.
No dia 12 de março aconteceu na fronteira do Brasil com Argentina o início do caminho da Carta pela América do Sul. Mais de três mil mulheres, sindicalistas, professoras e camponesas reuniram-se em Porto Xavier (RS) para esta o ato de passagem entre brasileiras e argentinas, que deu início à jornada mundial do documento da Marcha.
Foi um ano especial para a Marcha. A Carta viajou os continentes, mobilizou outras mulheres, outras culturas. Com a Carta foi possível apresentar discussões locais, unir mulheres que por muito tempo viveram separadas pela guerra e pelas disputas territoriais, mostrou que podemos superar obstáculos e construir solidariedade e ação internacional.
No dia do encerramento das ações internacionais, em 17 de outubro, os comitês estaduais organizaram ações locais de 24 horas de solidariedade feminista. Foram para as ruas mulheres de Parintins (AM), Belém (PA), Campo Grande (MS), Natal (RN), Mossoró (RN), Touros (RN), Quixadá (CE), Recife (PE), João Pessoa (PB), Maceió (AL), Belo Horizonte (MG), São Paulo (capital e cidades do interior), Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul (região das Missões, Santana do Livramento e Cerro Largo).
Das 12 às 13 horas, muitas saíram de suas casas e foram para as ações programadas. Fecharam bancos, abraçaram ministérios, montaram feiras de economia solidária, passeatas, atos, colagens e panfletagens exigindo o aumento do Salário Mínimo e mudanças na política econômica, cantando e mostrando que o mundo pode ser diferente.
Nossas lutas
Mas enquanto a Carta viajava pelo mundo muita coisa foi acontecendo aqui no Brasil. A Marcha, que teve seu início de mobilização com a ação local de mulheres do Quebéc, sempre foi apresentada como uma articulação feminista de luta contra a pobreza e a violência. E a partir daí os temas e pautas foram se incorporando e fazendo crescer o campo de intervenção das ativistas no Brasil.
A formação feminista nos debates e ações de rua, foi valorizada na construção da marcha mundial da Mulheres que retoma e reinventa o feminismo como espaço de militância. Além de debatermos os efeitos do capitalismo, conseguimos fazer com que mulheres de todos os setores do movimento se apropriassem de temas pouco discutidos em seu cotidiano, como a economia, que ganhou relevância nas discussões e pautas do nosso feminismo.
O tema da pobreza abarca questões como a valorização do Salário Mínimo, a luta contra o livre comércio, Alca, OMC, tratados bilateriais, a proposta de uma outra integração para a América Latina. Os debates da economia feminista alimentaram nossas reflexões e nossa capacidade de entender e intervir nas conjunturas.
A Campanha do Salário Mínimo, na qual pesquisamos e elaboramos uma proposta viável de valorização do mínimo brasileiro como forma de distribuição de riqueza para as trabalhadoras, teve um papel importante para a Marcha em nível nacional por dialogar com outros movimentos e articular estratégias de negociação desse tema, antes apagado nas plataformas políticas.
Na construção das Campanhas contra a ALCA e a OMC mobilizamos milhares de pessoas na discussão sobre o peso das ações neoliberais globais, que afetam diretamente a vida das trabalhadoras, sobretudo nos países da América Latina.
A campanha contra a mercantilização agregou sobretudo as jovens à nossa militância, formando uma nova geração do feminismo para o combate cotidiano às novas formas de opressão sexista.
Este setor, por sua vez, demonstrou originalidade e irreverência ao atuar em ações diretas de colagens de cartazes, panfletagens, passeatas e batucadas, verdadeiras frentes de protesto contra a exploração capitalista sobre o corpo das mulheres.
As discussões sobre violência doméstica, urbana ou rural, a violência das cidades, do tráfico, do crime organizado, dos capangas a serviço do latifúndio ou da polícia que discrimina jovens negros não tinha como ser deixada de lado. Assim como estivemos presentes em todas mobilizações contra as guerras de Bush, contra a ocupação do Haiti por tropas da ONU, contra as guerras que passam despercebidas na África. Em 5 de abril de 2005, realizamos uma vigília simultânea de solidariedade com as mulheres da Colômbia. Estivemos presentes nos atos do dia 19 de março, contra a guerra e pelo boicote a produtos estadunidenses.
Já no começo de 2006, saímos do Fórum de Caracas empenhadas na campanha “mulheres dizem não à guerra” e numa agenda global construída em aliança com os movimentos sociais latino-americanos, contra o imperialismo, a mercantilização e o militarismo.
Nossa iniciativa em participar das ações que envolvem a reforma agrária e a agroecologia ajudaram a articular o global à realidade local das trabalhadoras rurais. Falar de transgênicos, lei de patentes e fortalecimento da agricultura familiar em oposição ao agronegócio desencadeou outros temas como a ação das transnacionais e do capital financeiro sobre as comunidades do campo, a divisão sexual do trabalho e a violência doméstica. Pois os mecanismos de dominação do capitalismo estão todos engrenados.
A ação da Marcha no Brasil tem reflexo nos locais de atuação das ativistas: sindicatos, movimento estudantil, movimento das agricultoras, das mulheres sem-terra, desempregadas, nas pastorais, nas campanhas onde atuamos, no universo Fórum Social Mundial, nas ações mundiais contra as transnacionais e o livre comércio, nos bairros, em associações mistas.
Neste último ano, além de toda mobilização voltada para o lançamento da Carta das Mulheres para a Humanidade, foram realizadas colagens pela legalização do aborto e pela saúde da mulher. Além de um seminário no nordeste sobre aborto. Caminhamos pelos direitos das mulheres lésbicas. Fomos para as ruas com os movimentos sociais pedindo mudanças na política econômica. Participamos do Encontro Hemisférico contra a Alca, em Cuba, e da Cúpula anti-imperialista dos Povos, em Mar Del Plata. A presença da Marcha também foi marcante na Assembléia Popular Mutirão por um Novo Brasil e na II Marcha pelo Salário Mínimo convocada pelas centrais sindicais.
O I Encontro Nacional de Militantes da Marcha Mundial das Mulheres ocorrerá em boa hora, pois com certeza fortalecerá nossa construção como movimento de luta feminista e anticapitalista. Não temos dúvida de que as mulheres em movimento mudam o mundo e estamos colocando isso em prática, construindo força feminista, reivindicando a igualdade e a construção de uma sociedade sem opressão das mulheres, sem exploração de classe, sem racismo, sem homofobia e numa relação não predatória com o meio ambiente.